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Como a migração pode afetar a dinâmica de uma família?

Photo by Sandy Millar on Unsplash

 

 

Conforme mencionei no post "Como as fases do Processo de Migração podem afetar suas emoções", a migração pode ser entendida como um processo. O psiquiatra Carlos Sluzki descreve sobre o assunto com muita propriedade e faz uma análise bastante interessante sobre como essas fases podem também refletir na dinâmica familiar. Muito do que ele escreve eu observo também durante meus atendimentos a casais e famílias, independentemente das circunstâncias em que deixaram seus países de origem.

 

A mudança já traz uma expectativa grande com relação ao ajuste a uma nova cultura e formação de uma "nova" identidade. Mas ao contrário do que se pensa, grande parte dos conflitos resultantes da pressão de ajuste ao novo ambiente, se não a maior parte, não acontecem entre nativos e estrangeiros, e sim entre os próprios migrantes. Muitas vezes dentro da própria família.

 

Euforia, sobrecarga e negociação de novos papéis

Na Fase Preparatória, os membros da família podem ser contaminados por um grande "apetite" e curiosidade pelo novo, levando-os muitas vezes à exaustão. Nesse momento tem início, dentro de casa, a negociação sobre novas regras a respeito dos papéis e funções na família a serem incorporadas quando a mudança se concretizar. As responsabilidades são dividas e expectativas compartilhadas. Mas mesmo quando a decisão é tomada em conjunto, é comum vermos uma pessoa responsabilizada pela mudança, o que pode gerar troca de acusações e sentimento de culpa. 

 

Desligamento, dor da separação e contato com o novo

O Ato de ir embora afeta toda a família, e por mais que seja visto de forma positiva, envolve a ruptura com o conhecido. Algumas famílias encaram a mudança como permanente, enquanto outras preferem considerá-la temporária, mesmo que não exista perspectiva de retorno. E essa visão pode afetar muito na forma como o processo é encarado e se desencadeia. Com os meus clientes, eu percebo muitas vezes esse impacto não apenas nos casais, mas especialmente na integração das crianças no novo país. As famílias que consideram estarem apenas de passagem no país receptor podem manifestar, por exemplo, pouco interesse em se adaptar à cultura local e se relacionar com os nativos, o que pode refletir em dificuldades de adaptação e baixo rendimento escolar das crianças.

 

Lua de mel pós-mudança

Junto com um certo deslumbramento, na Fase de Honeymoon, pode-se notar uma maior eficiência orientada para a execução de tarefas. A divisão dos papéis dentro da família é intensificada. Famílias que eram unidas ficam ainda mais grudadas e em famílias membros eram distantes, a autonomia tende a aumentar. O foco é a sobrevivência, satisfação das necessidades básicas e adaptação. As dificuldades são ignoradas e muitos sintomas de crise e desorganização da estrutura familiar tendem a ficar dormentes nesse período. É como se a preocupação de todos fosse conhecer o máximo as regras locais e garantir o funcionamento da família. Pessoas que me procuram nessa fase tendem a focar em temas de dia a dia e buscam informações práticas sobre a vida na Suíça.

 

Confrontação com a nova realidade e crise

Na fase seguinte, chamada Descompensação, a identidade familiar e cultural começa a ser questionada, mas uma “nova” identidade multi ou bicultural ainda não está formada. Para muitas famílias essa pode significar uma fase tensa, pois cada pessoa tem uma capacidade diferente de adaptação. É geralmente um período turbulento, repleto de questionamentos, conflitos, sintomas e dificuldades. Alguns hábitos familiares e valores são mantidos, enquanto que outros são descartados, por não se encaixarem à cultura de acolhimento. A família procura, assim, remodelar sua nova realidade, mantendo sua identidade, mas possibilitando uma adaptação ao novo meio.

 

Integração e impacto transgeracional

É importante lembrar que cada família é única e particular. Tem sua bagagem cultural, uma dinâmica própria e regras. É formada por indivíduos distintos, com suas particularidades, características, desejos, necessidades e recursos individuais. Tudo isso tem que ser levado em conta. A forma como cada pessoa passará pelo processo migratório e como a família trabalhará sua reestruturação impactará na sua adaptação no novo país. É importante que haja, se possível, uma exposição saudável ao novo ambiente, facilitando a síntese entre o conteúdo tradicional (valores, normas, rituais familiares, etc.) e as novas circunstâncias culturais.

 

Dessa forma, é possível facilitar a integração da família e de seus membros. Além de minimizar um possível choque transgeracional, no qual diversos valores, estilos e regras familiares que não foram bem trabalhados e integrados no processo migratório apareçam com a segunda geração, por meio de conflitos e questionamentos com as crianças e jovens nascidos e criados no novo país. 

 

Mais uma vez reforço que nem todas as famílias passam por essas fases e da forma como aqui descrita. Mas entender esse processo pode aumentar a compreensão de que não estamos só e que muitos dos sentimentos novos e conflitantes que possamos ter são comuns a muitas pessoas. Cabe a nós aprender a lidar com eles e aproveitar da melhor maneira possível a experiência enriquecedora que a mudança de país pode nos proporcionar. 

 

 

 

Graziela Velardo Birrer

Aconselhadora Psicológica

Beraterin sGfB / Dipl. Körperzentrierte Psychologische Beraterin IKP

www.grazielabirrer.com

 

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Como as fases do Processo de Migração podem afetar suas emoções

August 4, 2017

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