Aconselhamento Psicológico

Textos e artigos

A autoestima do migrante

04/05/2018

 

Os impactos de uma migração na vida de uma pessoa são inegáveis. Diversos pilares essenciais da existência são afetados. Dessa maneira, as percepções de mundo e de si próprio sofrem alterações e precisam ser revistas. As formas e motivos da migração, como exemplificadas no texto “As várias facetas da migração”, assim como a história de cada um e as condições de vida no novo país influenciam na maneira como o migrante vivencia sua adaptação. Mas de uma forma ou de outra, sua autoestima acaba sendo abalada. 

 

Migração envolve sentimentos muito contrastantes, como curiosidade, excitação, empolgação; mas também medo, insegurança, raiva, tristeza. Causa uma reestruturação na vida e na identidade do indivíduo. E a autoestima - o valor que damos a nós mesmos e a forma como nos tratamos - pode ficar bastante abalada

 

Em janeiro tive o prazer de discutir a Autoestima do Migrante durante o primeiro encontro do Migração em Debate, um projeto que desenvolvo desde o início deste ano com a jornalista e treinadora intercultural Liliana Tinoco Bäckert. Foi muito interessante ouvir os depoimentos de cada uma das participantes sobre como o amor próprio fora afetado pelo processo de migração e discutir sobre possíveis caminhos para o fortalecer o sentimento. 

 

O primeiro passo é tomar ciência do processo e aceitar os sentimentos como eles surgem. E na medida do possível, se envolver ativamente nos acontecimentos. Observo que quanto mais as pessoas conseguem influenciar e decidir sobre diferentes aspectos relacionados à mudança, mais chances têm de encarar esse processo como algo positivo, aumentando assim a possibilidade de terem experiências favoráveis no novo país. 

 

É importante também entender que estamos inseridos em diversos sistemas e subsistemas, nos quais desempenhamos uma série de papéis: somos profissionais, filhos, parceiros, pais, vizinhos, irmãos, amigos, amantes, entre outros. Mudar de país altera a forma como vínhamos desempenhando esses papéis, e alguns deles podem inclusive perder o destaque durante um (bom) tempo. Como temos a tendência de desenvolver uma percepção de nós mesmos de acordo com cada um desses papéis que desempenhamos, mudanças podem refletir diretamente no valor que julgamos ter. 

 

Muitos desses valores e julgamentos que temos de nós mesmos são baseados nas relações e interações com o meio. E quando esse contato com o meio está fragilizado, pela falta de uma rede social, distância dos familiares ou exclusão do mercado de trabalho, nossa autoestima pode ficar bastante enfraquecida. 

 

Isso não ocorre somente no plano individual. No caso de famílias que migram, acontece também uma reestruturação dos papéis e ajustamento das expectativas de cada um. As mudanças no relacionamento entre os membros da família, se percebidas de forma negativa, podem abalar a autoestima de cada indivíduo. Autoestima enfraquecida pode influenciar também negativamente nos relacionamentos de pares e familiares. 

 

Nesse contexto, não podemos ainda nos esquecer do impacto do idioma. Quando não conseguimos nos expressar de forma correta é difícil que a troca com o ambiente e com o outro aconteça. Existe nesse caso uma tendência em supervalorizar o outro e se diminuir. Ou de se proteger, se fechando para novos contatos sociais.

 

Para os migrantes com a autoestima enfraquecida é interessante trabalhar o resgate da autoestima e redescoberta de si próprio. Aceitar os sentimentos e pensamentos, como mencionado, é o primeiro passo. Outro ponto importante é assumir a responsabilidade pelos acontecimentos. Não podemos influenciar o que fazem conosco, mas podemos decidir sobre como reagiremos aos acontecimentos. Somente assim sairemos da posição de procurar culpados para nos perguntar o que precisa ser feito. 

 

É muito importante também ser autêntico e congruente nos relacionamentos, sejam eles no país de origem ou no exterior. Rede de contato e de apoio, mesmo à distância, podem ser essenciais. Importante é não se isolar e usar a força adquirida nesses contatos para sair da zona de conforto e tentar se expor a novas situações e relacionamentos.

 

Após identificar e definir os propósitos e objetivos que condizem com a nova realidade é possível trabalhar na ativação dos recursos internos e externos necessários para atingir o que se deseja. 

 

Uma mudança de país pode vir acompanhada de muitas surpresas e nem todas agradáveis. Mas encarar os obstáculos como oportunidades nos permite mudar o foco e alcançar o melhor possível da experiência. Parto do princípio de que as dificuldades e desafios que enfrentamos não nos definem. São apenas uma parte da nossa jornada. E aprender a reconhecer, acolher e reforçar constantemente todas as nossas conquistas, qualidades e habilidades nos fortalece. O que funcionou antes pode ser repetido e o que é novo pode nos transformar.  

 

 

Graziela Velardo Birrer

Aconselhadora Psicológica / Terapeuta

Beraterin sGfB / Dipl. Körperzentrierte Psychologische Beraterin IKP

www.grazielabirrer.com

 

 

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