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Como as fases do Processo de Migração podem afetar suas emoções

Sou bastante cautelosa com relação a modelos, pois não gosto de me prender a definições. Mas modelos podem nos ajudar a visualizar o todo, a obter mais clareza e a entender nossa posição dentro de um 

processo. Quando bem usados nos permitem identificar ferramentas que possam nos ajudar a atingir o melhor resultado da fase em que nos encontramos. E é dessa forma também que a migração pode ser percebida: como um processo. 

 

Para tentar entender alguns sentimentos comuns vivenciados por migrantes gosto de usar o modelo da Lógica das Emoções no Processo de Migração segundo Carlos Sluzki (modificado por W. Machleidt). Nele, as fases e emoções citadas fazem parte do processo natural de adaptação da migração e contribuem para a formação de uma identidade bi- ou multicultural.

 

 

A migração começa muito antes do ato em si, ainda na fase de 

Preparação. Esse é um momento de busca de informações e envolve interesse, expectativa, curiosidade e grande vontade de viver o novo. A decisão de migrar pode significar libertação de modelos e normas antigos do país de origem, mas pode ocasionar também a falta de proteção do conhecido.

 

É uma fase de instabilidade emocional, onde surgem sentimentos como esperança e euforia, mas também insegurança e medo. A superação do medo permite que a migração se concretize. E sem essa superação não ocorre a migração voluntária.

 

A conotação positiva ou negativa dada à migração influencia no processo e na adaptação, assim como a forma, razão e motivo da migração, que variam muito. Independentemente de como ocorre a mudança de país, o Ato da migração normalmente envolve uma certa dor e agressão, causadas pela separação e desligamento. E sendo assim, nessa fase é vivida uma "pequena morte", que vem seguida por um luto. 

 

Passado esse momento inicial, sentimentos de curiosidade, euforia e nova perspectiva ganham força. É a chamada Supercompensação ou 

Honeymoon, fase em que os sonhos e aspirações ainda estão intactos. Algumas pessoas acreditam que esse período dure cerca de seis meses. Eu não gosto de me prender a essa estimativa, pois a experiência que tenho com meus clientes é que cada pessoa tem sua história e seu próprio ritmo. 

 

Na chegada positiva ao país receptor ocorrem sentimentos de prazer e alegria seguidos de um apetite imenso pela nova cultura e prontidão para a troca de informações e experiências. O "receber" e "dar" fluem com naturalidade e existe um grande esforço para integração e rápida aculturação.

 

Nessa fase as pessoas não costumam sentir os impactos da migração e nem o stress relacionado a tantas mudanças. 

 

Seguindo esse período tem início a Descompesação ou crise. Este é um momento marcado por turbulências e conflitos. Os migrantes ficam mais vulneráveis à doenças relacionadas ao stress e problemas 

psicossomáticos ou distúrbios, como vícios.

 

É uma fase de luta pela manutenção da existência, que envolve trabalho, moradia e continuidade da família. É marcada por um forte questionamento do „velho“ e busca por uma nova identidade, que pode durar anos. A confrontação com o desconhecido e exclusão social geram medo e agressão, mas também despertam a curiosidade e o desejo de adaptação e aceitação da nova oferta cultural. Significa a despedida de tradições e hábitos e integração dos novos ganhos culturais.

 

Durante as fases anteriores normalmente as pessoas não buscam médicos ou aconselhamento psicológico. Isso começa a acontecer, em geral, na fase de Descompensação ou crise. A necessidade de buscar ajuda está relacionada às necessidades básicas e à existência sócio-ocupacional. A identidade familiar e cultural começa a ser questionada, mas uma nova identidade multi ou bi-cultural ainda não está formada.

É possível que se inicie uma crise de identidade, que pode ser intensificada pela discriminação no país receptor, seja essa latente ou exclusão social explícita. É um momento confuso e desafiador, agravado pela falta de reconhecimento que o migrante recebe do ambiente social, pois sua rede social é muitas vezes limitada. A falta de emprego e rede de apoio podem agravar ainda mais alguns problemas, como a não-identificação ou identificação excessiva com o outro. 

 

Muitos migrantes passam a idealizar excessivamente a própria cultura, dificultando uma possível integração. Ou a cultura receptiva exerce um grande fascínio enquanto que a cultura de origem é negada. Ambas as situações dificultam a adaptação e integração no país de acolhimento, que já envolve bastante expectativa. Mas o curioso é que muitas vezes grande parte dos conflitos culturais resultantes da pressão de ajuste à nova cultura, se não a maior parte, não acontecem entre nativos e migrantes e sim entre os próprios migrantes. E muitas vezes dentro da própria família.

 

Com o tempo ocorre uma síntese entre os valores, normas, rituais, etc. e as novas circunstâncias culturais, até que se chegue à fase da 

"bi-culturalidade". Neste momento falamos também em formação de uma "nova" identidade, que resulta do trabalho bem-sucedido de integração das regras, hábitos e recursos novos e antigos.

 

Como aconselhadora psicológica aqui na Suíça atendo muitos migrantes e percebo como a maioria deles passa por essas fases e demonstra emoções e sentimentos como descritos no texto. Eu mesma consigo me identificar em muitos dos trechos acima. A compreensão da migração como um processo ajuda nos localizarmos dentro de um contexto e percebermos que existem fases. Isso significa que não estamos sozinhos em momentos de angústia, pois muitos dos sentimentos são esperados e comuns a muitas pessoas em situação semelhante. Significa também, que momentos menos agradáveis vão passar. E isso nos ajuda a reunir forças para fazer uso de todos os nossos recursos internos e externos e extraímos o melhor da nossa situação presente. 


Um pouco mais sobre os recursos internos e externos será abordado em um próximo post...

 

 

Graziela Velardo Birrer

Aconselhadora Psicológica

Beraterin sGfB / Dipl. Körperzentrierte Psychologische Beraterin IKP

www.grazielabirrer.com 

 

 

*Fonte: Machleidt, W. (2013). Migration, Kultur, und psychische Gesundheit: Dem Fremden begegnen (Lindauer Beiträge zur Psychotherapie und Psychosomatik). Kohlhammer.

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August 4, 2017

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